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Pornoterrorizando com Marvel Nessa

sexta-feira, 21 de março de 2014.
Ave Butler! Hail Derrida!

TEXTO QUE ESCREVI COM UMA AMIGA, PERFORMER PORNOTERRORISTA, A MARVEL NESSA (QUE NA VERDADE FEZ UMA TRADUÇÃO DO PREFÁCIO DO LIVRO "PORNOTERRORISMO" DE DIANA J. TORRES), PRA SER APRESENTADO COMO RESPOSTA E EXPLICAÇÃO DO ATO ULTRA-POLÊMICO NA JMJ- O TEMA MAIS POLÊMICO DO ANO DE 2013, ALIáS-, MAS QUE ACABEI DEVENDO PROS LEITORES:

Sobre Pornoterrorismo (por Erzulie Medusa Byron)


As reações e o mal-estar causado pela polêmica performance na ultima Marcha das Vadias de Copacabana, levada à cabo pelo Coletivo Coyote, nos colocaram a necessidade de fazer alguns apontamentos importantes. Não importa de formas contra ou à favor, o importante é que este julgamento deve ser minimamente embasado.

O que chamamos de Porno-Terrorismo s nada mais é do que uma vertente mais politizada e violenta do pós-pornô, que busca propiciar reflexões sobre gênero, sexualidade, Estado, opressões etc... a partir da lógica do "tratamento de choque", mostrando à sociedade heteronormativa aquilo que ela não deseja ver, que prefer jogar para baixo da tapete- nossos tabus e eneuroses. Neste sentido, este tipo de ato artístico-político tem a mesma função das fotografias chocantes de crianças esfomeadas  da Africa ou das cidades, porém considerando não a fome física, de ordem econômica, mas a repressão dos corpos e da sexualidade.

Mas o que é pós-pornô? 

Muito confundido, inclusive em meios feministas da esquerda, com pornografia "machista e vulgar", trata-se de uma tentativa de quebra de paradigmas do modelo de sexualidade dominante, “pai-mamãe". De fato é uma critica bastante recorrente e acertada de que a pornografia tradicional é machista, falocêntrica e desvaloriza a sexualidade das mulheres. 

O modelo usual de pornografia segue uma lógica fixa, um script presumível: começa com uma estorinha (na maioria das vezes não tem e quando tem, mostra a mulher como uma "presa fácil e bobinha" destituída de  libido e de vontade), passa-se à felação, ao sexo vaginal e anal e termina num "gran-finalle", a ejaculação masculina. Com pouquíssimas variações. Não precisa dizer que este modelo é heteronormativo, pois entende o ato sexual como mera penetração. Mesmo quando se resume a penetração oral, com a presença de travestis, masturbação, carícias entre mulheres lésbicas, os mesmo elementos normativos estão presentes, para empoderamento e deleite exclusivo do macho, sendo este o grande consumidor desse filão.

Jà o pós-pornô se propõe, enquanto vertente de arte performática, usar os corpos para destruir esta lógica. Se utiliza de elementos e sensações praticamente desconhecidos pela industria pornô, sejam eles o uso de sons e música  "exótica", uso e ressignificação de objetos- como no caso em questão de crucifixos e imagens,  É visceralmente politica e feminista porque  busca desconstruir o sexo enquanto construção de relações desiguais de poder- e não falamos somente de pornografia comercial já que o sexo é onipresente nas relações sociais. Nossos corpos e desejos se tornam o campo de batalha, de repressão e libertação.


Assim, a perfomance polêmica da Marcha das vadias pode ser entendida sobre multiplos ponto-de-vista. Como arte seria a ressignificação de um tema religioso para apresentar uma mensagem que o extrapola. Façanha parecida foi feita numa versão da Santa Ceia com travestis, e as inúmeras versões polêmicas da Paixão de Cristo produzidas por Hollywwod. Como manifesto político, o icone religioso se transforma nas correntes que prendem o oprimido, candeia que precisam ser quebradas. Representa a repressão sexual imposta pela Igreja por séculos e paralelamente, um retorno ao sagrado feminino vilipendiado e amordaçado.O problema não é a imagem e sim o sexo.





(parte da Nessa):


Marvel Nessa <3
A Performance, enquanto arte, evidenciou-se nas décadas de 1960 e 70, apesar de já haverem algumas manifestações anteriores, decretando o corpo como suporte da obra de arte. Porém, o corpo não é apenas matéria-prima reduzida à exploração de suas capacidades (exaltação de suas qualidades plásticas, medição de sua resistência e energia, desvelamento de seus pudores, inibições sexuais e perversões, seus poderes gestuais, etc), há a incorporação de aspectos sociais e individuais, vinculados a transfomação do artista na sua própria obra, ou seja, em sujeito e objeto de sua arte. A cultura nos leva a naturalizar comportamentos, gestos, seqüências de ações; a performances trabalha com a ausência de cristalização, ela particulariza o corpo como algo em potencial, em que a partir do imprevisto o simples adquire inúmeras possibilidades. Frente a um público que vive a ficção de seu próprio corpo, construída por rituais sociais estabelecidos, o artista apresenta em oposição um corpo que é prazer, sofrimento,dor e que a morte se inscreve. Dessa forma, ela perturba, rejeita, nega os velhos valores estéticos e morais, produzindo um estranhamento com imagens prévias de si próprio. Assim, através da transgressão, da mutilação, do onanismo, da escatologia, da degradação moral e da quebra de tabus, são realizadas denúncias, críticas e retira-se o espectador de um estado de indiferença e passividade. Busca-se, assim, despertar a consciência do público, retirando-o do ostracismo, através de uma experiência coletiva em que todos estão expostos ao golpe, pois ali o corpo é o denunciador de uma ferida coletiva, ferida esta portadora de uma metáfora do corpo.
Nestas ações o corpo ocupa todos os lugares, este não é a sua arte, é antes a sua linguagem. Expõe-nos um corpo aberto revelador de um sofrimento, é o testemunho de uma identidade, da experiência perceptiva, de certo modo social, é um corpo que expõe, denuncia e faz falar os mais íntimos segredos individuais e coletivos. Mas é precisamente por isso que o corpo exposto se torna estranho: por ser carnal, biológico, humano e, não um corpo idealizado pela perfeição. Não devido a uma artificialização ostensiva ou à sua comunhão perfeita com a técnica, e nem à intervenção de algum misterioso agente extra-mundano, mas é justamente por ser de carne e osso que ele se torna medonho. Porque é um conjunto de vísceras que incrivelmente vivem, pensam e sentem. E isso, por si só, serve para provocar um sentimento de estranheza com relação ao que somos: uma desnaturalização da nossa corporeidade em sua brutal condição anatômica, pateticamente finita e incompreensível.
O Pornoterrorismo - de Porné (em grego, Prostitua pobre ou escrava) e Terrorismo (Sucessão de atos de violência executados para infundir o terror) é, herdeiro desse viés artístico embora em seu manifesto se coloque enquanto anti-arte.
Diana J.Torres
“E como anti-arte, como arma de ação direta, como ritual mágico de encantamento, como exorcismo público, como máquina de guerra contra o aparato de captura da norma social hetero, como potência visual - contra/semiosis - o PornoTerrorismo é um modo de, um como construir um novo uso dos prazeres e reprogramar nossos desejos, um como engendrar as novas paixões alegres que acrescentem às nossas riquezas corporais, nossas potências imanentes, um como destruir as máquinas de fabricação dos gêneros e assim gerar uma contraprodutividade desde o prazer-saber.” (Manifesto Pornoterrorista Ludditas Sexuales)
“O pornoterrorismo é ação e conceito. As ações requerem experiências para nos empoderar, enquanto os conceitos projetam seu significado no tempo abrindo a possibilidade de que, em algum momento, se questione sua aplicação, permitindo ou levando a outro contexto. E ai reside seu potencial. [...] O pornoterrorismo nos recorda nossa materialidade, nossa animalidade, nossa brutalidade e, sobretudo, nossa sexualidade, nosso desejo. Mais ainda: nos diz que tudo isso que cremos como nosso, é território colonizado, e que é nossa responsabilidade expulsar o inimigo invasor. Ninguém virá nos salvar. O pornoterrorismo tampouco. Mas que se atreva o tempo duro a desafiar o infinito de uma vagina e um bom gel. [...] A História já nos demonstrou que a revolução é algo além de barricadas ardentes, encarceramentos massivos e hordas enfurecidas. Nesses tempos que vivemos, não há outra possibilidade de mudança radical que as pequenas ações que cumprem com o princípio da teoria do caos. E se o bater das asas de uma borboleta pode causar um tsunami no outro lado do mundo, me regozijo de prazer e esperança ao pensar o que pode ocasionar uma orgia sobre os cenários do mundo.” (tradução livre minha) -

( Diana J. Torres, no prefácio de "Pornoterrorismo)

Praquem se interessou e quer saber mais: http://pornoterrorismo.com/   

La Violinista [Trailer] from Quimera Rosa on Vimeo.

No closet

Desbundai e putiái!

2 Comentários:

Lubna Horizontal disse...

Lo siento mucho gente, pero donde decís Hellen Torres, en realidad es Diana J. Torres, en todos los casos, está en la portada de mi libro! jajaja

Erzulie Medusa Byron disse...

Agradeço muitíssimo pela devida correção. Devo ter encontrado este erro em algum site ou no Google e será imediatamente corrigido. Proponha que vc procure no Google pq provavelmente ha algum outro site com o mesmo problema. Gracias! Muitíssimo obrigadx pela visita.

PS não te respondo em espanhol pois meu conhecimento nesta lingua é terrível

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